Televisão (Você gosta mesmo — ou foi ensinado a gostar?)
English version below
"A televisão me deixou burro", diziam os Titãs em 1985.
Não, eles não estavam questionando a importância da caixinha mágica que mudou a nossa percepção de mundo. A crítica estava na maneira como nos deixamos influenciar por tudo o que vemos e ouvimos.
Algo similar poderia ser dito a respeito das redes sociais, dos streamings de música e coisas assim.
Por exemplo, ter fama equivale a ser talentoso?
Assim como acontece em vários lugares, a fama e o sucesso nem sempre estão relacionados ao talento.
Em municípios pequenos, amigos de políticos são convidados para os melhores cargos, pelo simples fato de serem "amigos ou parentes de políticos". Na televisão, nos meios de comunicação, algo similar acontece, aqueles que deveriam se destacar no mundo da música ou da arte são escolhidos a dedo, alguns por critérios bem duvidosos.
Vários artistas comentam que, no passado, para conseguirem papéis importantes, tiveram de fazer o chamado "teste do sofá" — prática que muitas vezes envolvia prestar favores, muitas vezes sexuais, a diretores ou chefes.
No mundo da música, aparecer em um determinado programa de TV era o suficiente para que "artistas" fossem considerados famosos e tivessem aumentos significativos em seus cachês.
Mas o que isso tem a ver com o "me deixou burro"?
Tempos atrás, muitas estações de rádio cobravam o chamado "jabá" para que os cantores tivessem suas canções apresentadas e elogiadas durante a programação.
A alta frequência e a repetição moldavam o gosto dos ouvintes. A voz atraente do locutor, a repetição contínua — tudo trabalhando para que aquele artista fosse aceito.
Uma vez alcançado o objetivo, empresários passavam a trabalhar num segundo campo: contratos com prefeituras e muita propaganda.
Por exemplo, no período das festas juninas, algumas prefeituras fazem contratos caríssimos com cantores ou duplas medíocres para satisfazer o desejo de uma população que não está lá para fazer parte da festa — que está lá apenas para ver o "famoso" que apareceu num programa de rádio ou televisão.
Quando algum administrador responsável prioriza artistas da terra ou artistas tradicionais, são severamente criticados — pois, na cidade vizinha, o prefeito contratou "o artista famoso".
A tolice de se comparar a outras cidades acabou com a festa. Temos shows...
As tradições são assassinadas por aqueles que criticam o fim das próprias tradições.
Algumas prefeituras brasileiras foram condenadas por desvios em grandes eventos.
A passividade que existia em frente às telas se replica nos streamings.
Recentemente, no Brasil, um cantor se tornou famoso pela canção "Caneta Azul".
Uma canção simples, um cantor desajeitado, desafinado... e os risos da plateia.
A fama chegou trazendo muitos shows e dinheiro.
Uma pergunta me aflige: o que esperavam as pessoas que iam àqueles shows?
As pessoas são moldadas a acreditar no sucesso de artistas com base nas tendências do Spotify e de outras plataformas de música e já não conseguem mais entender o que gostam — ou por que gostam...
Ainda há tempo de pensar...
O problema não está apenas no que nos oferecem —
mas no que aceitamos sem questionar.
Clique aqui para ouvir Titãs: Televisão
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"Television made me stupid"
"Television made me stupid," the Titãs used to say back in 1985.
No, they weren't questioning the importance of the magic box that changed our perception of the world. The criticism lay in how we allow ourselves to be influenced by everything we see and hear.
Something similar could be said about social media, music streamings, and the like.
For instance, does having fame equal being talented?
As it happens in many places, fame and success are not always related to talent. In small towns, friends of politicians are invited to fill the best positions simply for being "friends or relatives of politicians." On television and in the media, something similar occurs: those who are meant to stand out in the world of music or art are handpicked, sometimes based on highly dubious criteria.
Several artists have mentioned that, in the past, to secure important roles, they had to go through the so-called "couch audition" (teste do sofá) — a practice that often involved granting favors, frequently sexual, to directors or bosses.
In the music world, simply appearing on a certain TV show was enough for "artists" to be considered famous and see a significant increase in their performance fees.
But what does this have to do with "made me stupid"?
Years ago, many radio stations charged what was known as jabá (payola) to play and praise singers' tracks during their programming.
The high frequency and repetition shaped the listeners' taste. The radio host's engaging voice, the continuous repetition — everything working together so that the artist would be accepted.
Once that goal was achieved, managers began working on a second front: contracts with city halls and heavy advertising.
For example, during the Festa Junina (June Festivals) period, some local governments sign extremely expensive contracts with mediocre singers or duos to satisfy the desires of a population that isn't there to actually be part of the festival — they are only there to see the "celebrity" who appeared on a radio or TV show.
When a responsible administrator prioritizes local or traditional artists, they are harshly criticized — because in the neighboring town, the mayor hired the "famous artist."
The foolishness of comparing oneself to other towns ruined the festival. We have concerts... but traditions are murdered by those who criticize the very end of those traditions.
Some Brazilian municipalities have even been convicted for embezzlement in major events.
The New Passivity
The passivity that used to exist in front of the screens is now replicated on streaming platforms.
Recently in Brazil, a singer became famous for the song "Caneta Azul" (Blue Pen). A simple song, an awkward, out-of-tune singer... and the audience's laughter. Fame arrived, bringing many concerts and money.
One question bothers me: what did the people going to those concerts expect?
People are molded to believe in the success of artists based on Spotify trends and other music platforms, and they can no longer understand what they actually like — or why they like it...
There is still time to think...
The problem is not just what they offer us — but what we accept without questioning.
Listen to the song Televisão
as pessoas hoje em dia a grande maioria vão pra filmar o artista do que pra curtir a experiência do show... ótimo post!
ResponderExcluirTriste verdade, rdlemon.. As pessoas infelizmente se tornaram expectadores passivos! Obrigado por participar com a gente.
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