segunda-feira, 15 de junho de 2026

O filho que eu quero ter

Leia em inglês abaixo                                                                                                                                                                   English version below

O FILHO QUE EU QUERO TER




Poucas canções traduzem o amor e o sonho de uma paternidade como a canção de hoje.

A espera... 

É comum a gente sonhar eu sei

Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer...

O desenvolvimento... 

De repente eu vejo se transformar

Num menino igual a mim

Que vem correndo me beijar

Quando eu chegar lá de onde eu vim

As perguntas sem fim...

Um menino sempre a me perguntar

Um porquê que não tem fim

Um filho a quem só queira bem

E a quem só diga que sim

E o final do ciclo... 

Quando a vida enfim me quiser levar

Pelo tanto que me deu

Sentir-lhe a barba me roçar

No derradeiro beijo seu

E ao sentir também sua mão vedar

Meu olhar dos olhos seus

Ouvir-lhe a voz me embalar

Num acalanto de adeus

A canção foi composta no ano 1974, e gravada no álbum "Toquinho & Vinícius" pelo próprio autor. Inclusive, Toquinho, um dos compositores, explicou que a melodia chegou, mas não tinha  a letra para seu filho, quando decidiu perguntar a Vinícius de Moraes se ele tinha algo pronto.

Vinícius, com a tranquilidade de sempre, falou que não, naquele momento, mas que ele iria pensar em alguma coisa.

Toquinho decidiu passear um pouco e, quando retornou, a letra já estava pronta.

Segundo o próprio Toquinho, quando ambos encaixaram a letra e a melodia, as emoções tomaram conta de modo que chorar era algo inevitável. Ele havia percebido que "o poetinha", como era carinhosamente chamado Vinícius, havia falado também muito de si naquela letra.

Bem, cá pra nós, se cada vez que as pessoas pensassem "um pouquinho" surgisse uma obra dessas, o mundo seria outro, bem mais belo.

O REFRÃO

Os versos na melodia que compõem o refrão são o que podemos definir como esculturas em palavras, como mantras de ninar. As palavras expressam carinho e resignação.

Primeiro Refrão: 

Dorme meu pequenininho

Dorme que a noite já vem

Teu pai está muito sozinho

De tanto amor que ele tem

Segundo Refrão: 

Dorme menino levado

Dorme que a vida já vem

Teu pai está muito cansado

De tanta dor que ele tem

Terceiro Refrão:

Dorme meu pai sem cuidado

Dorme que ao entardecer

Seu filho sonha acordado

Com o filho que ele quer ter

Nota do autor: A canção "O Filho que eu quero ter" é mais que poesia. É a tradução de um amor que começa na expectativa de um filho e que se carrega até o último momento, quando a vida deixa de ser...

Expressar tal amor é necessário para a formação da criança. A falta de tal amor pode gerar insegurança, medo, problemas psicológicos e sociais.

Durante muitos anos os homens foram incentivados a não demonstrarem seus sentimentos, pois isso era tido como fraqueza e razão de muitos males. Esse pensamento equivocado produziu gerações de homens medrosos e inseguros, que tentam se reafirmar por meio de fingimento e, algumas vezes, violência.

Que pensar um pouco nesta bela canção traga mais do que apenas um momento de paz e contemplação — traga lições.


E você, o que achou dessa canção?

O que "O Filho que eu Quero Ter" desperta em você? Você já conhecia a história por trás da composição de Toquinho e Vinícius?

Quero muito saber a sua opinião e ouvir a sua história. Deixe seu comentário aqui embaixo! Vamos conversar sobre música, paternidade e afeto. 👇💬


***                                                                      ***                                                              ***

English version below :

THE SON I WANT TO HAVE



Few songs translate the love and the dream of fatherhood quite like today's song.

The waiting... 

It is common for us to dream, I know

When twilight begins to fall 

For I too have taken to dreaming 

A dream so beautiful, it’s to die for...

The development... 

Suddenly I see him transform

Into a boy just like me

Who comes running to kiss me

When I arrive from wherever I’ve been

The endless questions... 

A boy always asking me

A "why" that has no end

A son whom I only wish well

And to whom I only say yes

And the end of the cycle... 

When life finally wants to take me away 

For everything it has given me

To feel his beard brush against me

In his final kiss to me

And to also feel his hand close

My gaze from his eyes

To hear his voice rock me

In a lullaby of goodbye

The song was composed in 1974 and recorded on the album "Toquinho & Vinícius" by the author himself. In fact, Toquinho, one of the composers, explained that the melody had arrived, but he didn't have the lyrics to dedicate to his son, which is when he decided to ask Vinícius de Moraes if he had anything ready.

Vinícius, with his usual calmness, said no, not at that moment, but that he would think of something.

Toquinho decided to go for a short walk, and when he returned, the lyrics were already finished.

According to Toquinho himself, when they both fitted the lyrics and the melody together, emotions took over to the point where crying was inevitable. He realized that "o poetinha" (the little poet), as Vinícius was affectionately called, had also spoken a lot about himself in those lyrics.

Well, between you and me, if every time people thought "just a little bit" a masterpiece like this emerged, the world would be a very different place, and a much more beautiful one.

THE CHORUS

The verses in the melody that make up the chorus are what we can define as sculptures in words, like lullaby mantras. The words express affection and resignation.

First Chorus:

Sleep, my little one Sleep,

 for the night is coming 

Your father is very lonely

From all the love he holds

Second Chorus:

Sleep, you mischievous boy

Sleep, for life is coming

Your father is very tired

From all the pain he holds

Third Chorus: 

Sleep, my father, free of worry

Sleep, for at twilight 

Your son dreams awake

Of the son he wants to have

Author's Note: The song "O Filho que eu quero ter" is more than poetry. It is the translation of a love that begins in anticipation and is carried until the very last moment, when life ceases to be...

Expressing such love is necessary for a child's development. The lack of such love can generate insecurity, fear, as well as psychological and social issues.

For many years, men were encouraged not to show their feelings, as this was seen as a weakness and the root of many evils. This mistaken mindset produced generations of fearful and insecure men who try to reaffirm themselves through pretense and, sometimes, violence.

May reflecting a little on this beautiful song bring more than just a moment of peace and contemplation — may it bring lessons.


And what about you? What do you think of this song?

What does "O Filho que eu Quero Ter" awaken in you? Did you already know the story behind Toquinho and Vinícius’ composition?

I would love to know your thoughts and hear your story. Leave your comment down below! Let’s chat about music, fatherhood, and affection. 👇💬

sábado, 13 de junho de 2026

Epitáfio - Qual o resumo de uma vida?

         Leia em inglês abaixo

                                                                                                        English version below 

Qual o resumo de uma vida?

Epitáfio.

A canção composta por Sérgio Britto traz a reflexão das coisas que certamente sentimos falta no final de tudo: “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr” ou mesmo “ter morrido de amor”.

Afinal, “o acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído” — ou, quem sabe, uma lembrança bíblica involuntária de que “o tempo e o imprevisto ocorrem a todos”.

A canção Epitáfio marca um drama profundo na história do grupo Titãs. Em 2001, o grupo debatia sobre quais músicas deveriam compor o repertório do álbum A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, e esta faixa não estava entre as preferidas da maioria. Um dos poucos que apoiavam fortemente a inclusão da música era o guitarrista e "tranquilizador do grupo", Marcelo Fromer.



Tudo ia bem até que, numa de suas rotinas de exercício físico — uma caminhada/corrida pelas ruas de São Paulo —, o jovem guitarrista foi atingido por uma motocicleta, perdendo a vida precocemente. Por estar sem documentos, ele foi atendido inicialmente como desconhecido, o que dificultou o contato com amigos e familiares. Quando os companheiros de banda finalmente receberam a notícia, um clima devastador de tristeza tomou conta de todos.

Na ocasião do lançamento do álbum, a música parecia combinar perfeitamente (e dolorosamente) com a situação.

#tbtTitãs 2002 - Epitáfio [TBT]

Epitáfio significa, literalmente, a inscrição gravada em uma lápide ou túmulo, um último resumo ou homenagem a quem já se foi.

Diante disso, uma das grandes questões que a música nos suscita é: “O que estou esperando para valorizar as pessoas que amo? O que espero para prezar os momentos simples e as pequenas alegrias?”

Tudo o que se espera de uma biografia é que o "descanse em paz" traga em si a certeza de uma história rica em amor, presença, momentos de contemplação e, acima de tudo, uma eterna saudade.

Se você gostou, comente abaixo e diga que música você gostaria de ter  no blog.


What is the Summary of a Life?

Epitaph.

The song composed by Sérgio Britto brings forth a profound reflection on the things we will certainly miss at the very end of everything: “I should have loved more, cried more, watched the sun rise; I should have complicated things less, worked less, watched the sunset” or even “died of love.”

After all, “chance will protect me while I walk distracted” — or perhaps, an involuntary biblical reminder that “time and unexpected events overtake them all.”

The song Epitáfio marks a deep tragedy in the history of the Brazilian rock band Titãs. In 2001, the group was debating which songs should make up the tracklist for their album A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, and this specific track was not among the favorites of most members. One of the few who strongly advocated for the inclusion of the song was their guitarist and the group's "peacemaker," Marcelo Fromer.



Everything was going well until, during one of his routine fitness exercises — a jog through the streets of São Paulo —, the young guitarist was struck by a motorcycle, tragically losing his life. Because he was carrying no identification documents, he was initially treated as an unknown patient, which severely delayed contact with his friends and family. When his bandmates finally received the news, a devastating shroud of grief enveloped the entire group.

Upon the release of the album, the song felt perfectly — and painfully — tailored to the circumstance.

#tbtTitãs 2002 - Epitáfio [TBT]

An epitaph means, quite literally, the inscription carved onto a tombstone: a final summary, a parting homage to someone who has passed away.

In light of this, one of the greatest questions the song evokes within us is: “What am I waiting for to cherish the people I love? What am I waiting for to prize the simple moments and the small joys of existence?”

Ultimately, all that is ever expected of a biography is that the phrase "rest in peace" carries within itself the weight of a story rich in love, active presence, moments of quiet contemplation, and above all, an everlasting, beautiful longing.

If you enjoyed this, leave a comment below and let me know which song you would like to see featured next on the blog!"

quarta-feira, 10 de junho de 2026

COMO NOSSOS PAIS - O CICLO QUE SE REPETE

 COMO NOSSOS PAIS


"Viver é melhor que sonhar…

Eu sei que o amor é uma coisa boa." — Belchior


Para começar este artigo, lembramos que a interpretação das letras é aberta. As canções são vivas e a sua mensagem pode viver e reviver através de muitas gerações.


Belchior é, de fato, um dos maiores nomes da história da Música Popular Brasileira. Nordestino, cearense, pensador e compositor de verdadeiras pérolas.


Neste artigo, vamos mergulhar na letra desta canção que tanto pode ser um chamado à ação para uma nova geração quanto um lamento diante do eterno ciclo de esperanças e desilusões.


Entre as várias interpretações de belos cantores, destacamos aqui as versões de Elis Regina e do próprio Belchior. A canção foi lançada originalmente no disco Alucinação, do próprio compositor. Elis Regina também a gravou em 1976, no álbum Falso Brilhante.




Como Nossos Pais (Remastered 2006) Clique no link para ouvir Elis Regina



A interpretação visceral de Elis provoca e constrange, como se estivesse perguntando:

"Vamos continuar repetindo os mesmos erros? Será que não aprendemos nada? Assim como os nossos pais, veneramos artistas que parecem trazer novas ideias, mas que no fundo estão lá, sacrificando as suas próprias personalidades pelo vil metal?"


Na TV, apresentadores fingem se importar com pessoas carentes e simulam choro e indignação diante das injustiças — enganando um público que parece, muitas vezes, desejar ser enganado.


No campo político, o novo discurso surge na boca de velhos atores que se beneficiaram por toda uma vida desse mesmo sistema. A esperança cega e o desejo de mudança ofuscam a razão, perpetuando o ciclo de erros. As gerações acabam, não raro, perpetuando a hipocrisia ao acreditar que alguém novo vai aparecer trazendo mudanças.


As gerações se sucedem e repetem os mesmos erros.


Estamos todos cientes da necessidade de uma mudança, mas o que se espera realmente? O que é, de fato, essa mudança? Trocam-se personagens que, como num clássico de cinema em preto e branco, repetem mecanicamente as mesmas cenas para um público novo.


E o novo sempre vem — sejam novas promessas, novas ideias… ou apenas novas gerações.


No final da década de 1960, o movimento Flower Power trouxe à tona a utopia de um mundo mais simples, guiado pelo amor livre e pela busca da paz. Esse imaginário atravessou fronteiras e encontrou ressonância no Brasil, influenciando diretamente a estética e o pensamento da Tropicália


Aquela ilusão de paz foi se diluindo com o tempo e no meio da década de 1970 já havia se tornado uma utopia. 

Belchior certamente observava com atenção esse movimento.


Os movimentos passaram... e, com ele os sonhos e as certezas.

Mas, em sua essência… nada mudou.


Apesar de tantos experimentos e tantas mudanças, a busca e os erros se repetem.


Ouvir as mais diferentes versões desta música nos mostra o poder e o sentimento do intérprete. Não há uma versão melhor ou pior — o que existe são meios diferentes de transmitir sentimentos diferentes com as mesmas palavras.





Alucinação - Como Nossos Pais Clique para ouvir Belchior


A interpretação do autor evoca a sensação de desilusão de quem viu tudo e concluiu que a busca é, em si, o sentido e o motivo de tudo. A voz comedida e angustiada, como a de um homem que lamenta constatar que tudo o que se pode fazer — e tem sido feito — é repetir este ciclo sem fim.



"Apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais."







                                                                                                      Leia em inglês abaixo

                                                                                                        English version below 




LIKE OUR PARENTS


Living is better than dreaming…

I know that love is a good thing.” — Belchior


To begin this article, it is worth remembering that the interpretation of lyrics is open. Songs are alive, and their message can live and relive across many generations.

Belchior is, indeed, one of the greatest names in the history of Brazilian Popular Music. Northeastern, from Ceará, a thinker and a composer of true gems.

In this article, we will dive into the lyrics of this song, which can be both a call to action for a new generation and a lament in the face of the eternal cycle of hopes and disillusionments.

Among the many interpretations by remarkable performers, we highlight here the versions by Elis Regina and Belchior himself. The song was originally released on the album Alucinação, by the composer. Elis Regina also recorded it in 1976, on the album Falso Brilhante.


                                                           

Como Nossos Pais (Remastered 2006) by Elis Regina


The visceral interpretation of Elis provokes and unsettles, as if asking:

“Are we going to keep repeating the same mistakes? Haven’t we learned anything? Like our parents, do we idolize artists who seem to bring new ideas, but who, deep down, are sacrificing their own identities for money?”

On television, presenters pretend to care about people in need, simulating tears and outrage in the face of injustice — deceiving an audience that often seems to want to be deceived.

In the political arena, new discourse emerges from the mouths of old actors who have benefited from that same system their entire lives. Blind hope and the desire for change cloud reason, perpetuating the cycle of mistakes. Generations end up, not rarely, perpetuating hypocrisy by believing that someone new will appear to bring real change.

Generations follow one another and repeat the same mistakes.

We are all aware of the need for change, but what is really expected? What is, in fact, this change? Characters are replaced who, like in a classic black-and-white film, mechanically repeat the same scenes for a new audience.

And the new always comes — whether new promises, new ideas… or simply new generations.

In the late 1960s, the Flower Power movement brought forward the utopia of a simpler world, guided by free love and the search for peace. This imaginary crossed borders and found resonance in Brazil, directly influencing the aesthetics and thinking of Tropicália.

That illusion of peace gradually faded, and by the mid-1970s it had already become a utopia.

Belchior certainly observed this movement closely.

The movements passed…

And, in their essence… nothing changed.

Despite so many experiments and so many changes, the search — and the mistakes — repeat themselves.

Listening to the many different versions of this song reveals the power and emotion of each performer. There is no better or worse version — only different ways of conveying different feelings through the same words.


Alucinação - Como Nossos Pais by Belchior

The author’s own interpretation evokes the feeling of disillusionment of someone who has seen it all and concluded that the search itself is the meaning and the reason for everything. His restrained and anguished voice sounds like that of someone who realizes, with uncomfortable clarity, that all that can be done — and has been done — is to repeat this endless cycle.


“Despite everything we have done, everything, everything we have done, we are still the same and we live just like our parents.”



Translation by A.I

segunda-feira, 8 de junho de 2026

João e Maria – O que essa canção realmente conta?

João e Maria


   Leia em inglês abaixo

                                                                                                          English version below 


"Agora eu era o herói

 E o meu cavalo só falava inglês..." 


 Uma das mais belas canções brasileiras começa com estas palavras. 

 Poucas canções traduzem a nostalgia e a saudade da infância como João e Maria, de Chico Buarque e do mestre Sivuca.

 Interessante que a melodia foi elaborada em 1947, quando Sivuca tinha apenas 17 anos, e Chico ainda era um menino de 3 anos.

 Por 30 anos a canção seguiu sem nome até que em 1977 recebeu título e letra que se harmonizaram perfeitamente.

 A linda canção é rica em seus detalhes: 

 Se você apaixonado por letra de música, saiba que esta canção fala sobre um relacionamento que chegou ao fim. 

 A fantasia, a princesa, os planos, as dificuldades e o fim... tudo isso, interpretado docemente por Chico Buarque e Nara Leão. 



Chico Buarque e Nara Leão - João e Maria (Com Letra na Descrição) -Legendas (Clique no link para ouvir)


 É muito difícil ouvir e não se emocionar com esta obra que em si já é completa.

 Mas se você é apaixonado por história ela traz alguns detalhes que entregam um pouco da época em que foi escrita.


 "Eu enfrentava os batalhões,

 os alemães e seus canhões

 Guardava o meu bodoque

 E ensaiava um rock

 Para as matinês

 Agora eu era o rei

 Era o bedéu

 e era também juiz

 E pela minha lei 

 A gente era obrigado a ser feliz"


 Além de referir-se aos nazistas, Chico Buarque cita os bedéis, inspetores disciplinares que na época da ditadura atuavam como dedos duros nas universidades e juízes que serviam ao regime.

 O fim melancólico, pode remeter os ouvintes a uma recordação agridoce... 


 "Agora era fatal 

 que o faz de conta terminasse assim

 Pra lá desse quintal

 era uma noite que não tem mais fim

 Pois você sumiu no mundo sem me avisar 

 E agora eu era um louco a perguntar

 O que é que a vida vai fazer de mim?"


 As palavras que remetem ao final melancólico de uma fantasia, de um relacionamento, são as mesmas que podem lembrar os muitos desaparecidos, sem deixar rastros durante o regime ditatorial militar que "deu sumiço" a milhares de pessoas - que assassinou várias histórias.

 Que se manteve no poder por divulgar mentiras e espalhar medo e insegurança. 

 Toda canção pode significar algo diferente para alguém e sinceramente, a canção João e Maria é uma daquelas canções que nos fazem pensar "tudo poderia ter dado certo". 

 Mas, não fique triste - ainda há tempo.

 Deixo aqui alguns links com textos super interessantes que ampliaram a minha visão no significado desta obra inesquecível. Visite os sites abaixo.

A história da música "João e Maria", de Chico Buarque - Novabrasil

João e Maria (Chico Buarque) Lirismo ou crítica social? – musicaemprosa

#mpb #cultura #joãoemaria


João e Maria 


“Now I was the hero

And my horse could only speak English...”


There are songs that begin… and there are songs that stay with us.

One of the most beautiful Brazilian songs begins exactly like this.


Few songs can translate the nostalgia — and the quiet ache of childhood — the way João e Maria, by Chico Buarque and the master Sivuca, does.


There is something curious behind it: the melody was written in 1947, when Sivuca was only 17 years old. Chico, at that time, was just a 3-year-old boy.

The song waited. For 30 years, it had no name.

Until, in 1977, it finally found its lyrics — and everything fell perfectly into place.


And what a song it became.


If you enjoy paying attention to lyrics, you may notice: this is not just a childhood story.

It is about an ending.

A relationship that didn’t last.


The fantasy, the princess, the plans, the struggles… and, inevitably, the end.

All of this gently carried by the voices of Chico Buarque and Nara Leão.


It is hard to listen to it and not feel something.

Because the song, in itself, is already whole.


But if you look a little closer, it also reveals traces of its time.


“I faced the battalions,

the Germans and their cannons

I kept my slingshot

And rehearsed a rock

For the matinees

Now I was the king

I was the hall monitor

and also the judge

And by my law

We were forced to be happy”


Beyond the reference to the Nazis, Chico quietly brings in something else:

hall monitors — figures who, during the dictatorship, often acted as informants — and judges aligned with the regime.


And then comes the ending. Quiet. Melancholic. Almost inevitable.


“Now it was inevitable

that make-believe would end like this

Beyond that backyard

there was a night with no end

Because you disappeared into the world without telling me

And now I was a madman asking

What will life do with me?”


These words may sound like the end of a love story.

And they are.


But they can also echo something deeper —

the memory of those who disappeared without a trace during the military dictatorship,

a time that erased lives, silenced stories,

and sustained itself through fear and lies.


Every song means something different to someone.

And honestly, João e Maria is one of those songs that leaves us with a simple, almost unavoidable thought:

it could have worked.


But don’t hold on to the sadness.

There is still time.


Below are some links to texts that helped expand my understanding of this unforgettable song. If you’re curious, they are worth your time.


A história da música "João e Maria", de Chico Buarque - Novabrasil

João e Maria (Chico Buarque) Lirismo ou crítica social? – musicaemprosa


Tradução por I.A

sábado, 6 de junho de 2026

Televisão (Você gosta mesmo — ou foi ensinado a gostar?)





"A televisão me deixou burro", diziam os Titãs em 1985.

Não, eles não estavam questionando a importância da caixinha mágica que mudou a nossa percepção de mundo. A crítica estava na maneira como nos deixamos influenciar por tudo o que vemos e ouvimos.

Algo similar poderia ser dito a respeito das redes sociais, dos streamings de música e coisas assim.

Por exemplo, ter fama equivale a ser talentoso?

Assim como acontece em vários lugares, a fama e o sucesso nem sempre estão relacionados ao talento. 

Em municípios pequenos, amigos de políticos são convidados para os melhores cargos, pelo simples fato de serem "amigos ou parentes de políticos". Na televisão, nos meios de comunicação, algo similar acontece, aqueles que deveriam se destacar no mundo da música ou da arte são escolhidos a dedo, alguns por critérios bem duvidosos.

Vários artistas comentam que, no passado, para conseguirem papéis importantes, tiveram de fazer o chamado "teste do sofá" — prática que muitas vezes envolvia prestar favores, muitas vezes sexuais, a diretores ou chefes.

No mundo da música, aparecer em um determinado programa de TV era o suficiente para que "artistas" fossem considerados famosos e tivessem aumentos significativos em seus cachês.


Mas o que isso tem a ver com o "me deixou burro"?


Tempos atrás, muitas estações de rádio cobravam o chamado "jabá" para que os cantores tivessem suas canções apresentadas e elogiadas durante a programação.

A alta frequência e a repetição moldavam o gosto dos ouvintes. A voz atraente do locutor, a repetição contínua — tudo trabalhando para que aquele artista fosse aceito.

Uma vez alcançado o objetivo, empresários passavam a trabalhar num segundo campo: contratos com prefeituras e muita propaganda.

Por exemplo, no período das festas juninas, algumas prefeituras fazem contratos caríssimos com cantores ou duplas medíocres para satisfazer o desejo de uma população que não está lá para fazer parte da festa — que está lá apenas para ver o "famoso" que apareceu num programa de rádio ou televisão.

Quando algum administrador responsável prioriza artistas da terra ou artistas tradicionais, são severamente criticados — pois, na cidade vizinha, o prefeito contratou "o artista famoso".


A tolice de se comparar a outras cidades acabou com a festa. Temos shows...


As tradições são assassinadas por aqueles que criticam o fim das próprias tradições.

Algumas prefeituras brasileiras foram condenadas por desvios em grandes eventos.

        A passividade que existia em frente às telas se replica nos streamings.

Recentemente, no Brasil, um cantor se tornou famoso pela canção "Caneta Azul".

Uma canção simples, um cantor desajeitado, desafinado... e os risos da plateia.

A fama chegou trazendo muitos shows e dinheiro.

Uma pergunta me aflige: o que esperavam as pessoas que iam àqueles shows?

As pessoas são moldadas a acreditar no sucesso de artistas com base nas tendências do Spotify e de outras plataformas de música e já não conseguem mais entender o que gostam — ou por que gostam...

Ainda há tempo de pensar...

O problema não está apenas no que nos oferecem —
mas no que aceitamos sem questionar.


                                     Clique aqui para ouvir Titãs:  Televisão

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quinze Anos 15 – Entre a descoberta de si e o encanto de viver

Por que a idade de  15 anos é considerada tão especial?

Como aqui falamos de Livros e Músicas, vamos lá...

O livro "Quinze anos" de Carlos Heitor Cony é uma daquelas leituras que deixam uma sensação nostálgica muito boa. 

Trata-se de um livro de crônicas e contos com vários subtítulos, em vez de uma grande história.

O autor costura uma coleção de episódios, casos verídicos (ou quase!) focados no cotidiano e nas complexidades da adolescência.

As descobertas, os primeiros amores, as apreensões com o futuro e a busca por identidade  fazem deste livro uma obra que espelha a juventude como ela é, sem formas ou desfechos mirabolantes - mas, cheia de histórias, sonhos e poesias.

Uma leitura encantadora!




Um dos motivos para este encantamento com os 15 anos, é que existe um fator natural: por volta dessa idade, ocorre a transição mais visível da infância para a adolescência. 

O corpo muda, a percepção de si mesmo se intensifica, e surge uma sensação nova de identidade. É como se a pessoa começasse a “se ver” no mundo com mais clareza.

Além disso, existe um componente emocional e narrativo

Tudo nessa idade parece mais intenso (amizades, paixões, sonhos)

É uma idade que a memória guarda com força!

Muitos filmes, músicas e histórias reforçam esse momento como especial

As novelas, músicas, redes sociais e histórias continuam reforçando que 15 anos é “uma idade especial”.

Pequenos rituais adaptados: mesmo sem festa grande, muitas famílias fazem algo simbólico — um bolo, um ensaio fotográfico, um presente marcante.

Há também a expectativa interna: o próprio adolescente absorve essa ideia e passa a sentir que aquele ano “significa algo”.

Ou seja, o encantamento é também aprendido — a gente cresce ouvindo que essa idade é mágica, e acaba vivendo (ou esperando viver) algo mágico nela.

Uma canção de 1970, do cantor Leno, traz um pouco do romantismo relacionado a esta fase tão especial.

                                         LENO - A FESTA DOS SEUS 15 ANOS - 1970 ESTEREO



terça-feira, 2 de junho de 2026

Aquarela - O que acontece no fim?

 Leia em inglês abaixo

  English version below                                                                                                        



                "Vamos todos numa linda passarela, de uma aquarela que um dia, enfim…

                                                                            Descolorirá". 

 Aquarela - Compositores: Toquinho, Guido Morra, Maurizio Fabrizio, Toquinho, Vinicius de Moraes



Muitos ficam surpresos ao descobrir que as palavras finais desta linda canção falam da morte, de modo poético.

Passamos a vida tingindo quadros de ações e emoções que, como cores, trouxeram as mais variadas experiências — e esquecemos, muitas vezes, que a tinta…

Acabará.

Analisando mais a fundo a letra desta canção, podemos perceber mais um detalhe: a arte que se constrói durante a vida, tão passageira, demanda tempo, energia, pensamentos… e mesmo assim será interrompida um dia.

Qual seria a cor de nossos pensamentos ao longo desse caminho?

Alguns passam pela vida como folhas, secas, descoradas, sendo levadas pelo vento, ao sabor dos instintos. Outros param, contemplam a paisagem e, de algum modo, se tornam parte dela. Esta pode ser a diferença no tom das cores que emprestamos a essa aquarela.

Ainda que se descolorindo com o tempo, haverá sempre uma marca que jamais será esquecida.





Watercolor (Aquarela)


"Let us all walk on a beautiful runway, of a watercolor that one day, at last… Will fade away." 

Aquarela - Songwriters: Toquinho, Guido Morra, Maurizio Fabrizio, Toquinho, Vinicius de Moraes


Many are surprised to discover that the final words of this beautiful song speak of death in such a poetic way.

We spend our lives painting canvases with actions and emotions that, like colors, bring the most varied experiences — and we often forget that the ink… Will run out.

Analyzing the lyrics of this song more deeply, we can notice yet another detail: the art we build throughout life, so fleeting, demands time, energy, thoughts… and yet, it will be interrupted one day.

What would be the color of our thoughts along this path?

Some go through life like dry, faded leaves, carried away by the wind, at the mercy of their instincts. Others stop, contemplate the landscape, and, somehow, become part of it. This might be the difference in the shade of the colors we lend to this watercolor.

Even if it fades with time, there will always be a mark that will never be forgotten.

                                                              

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quem precisa de Musicália? Você precisa...

 

50 Anos de Sonho e Sangue —
Belchior revisitado

Canal Musicália · Cultura · Livros & Músicas



Todas as sextas-feiras, alguém — com um riso simpático e genuíno — abre o seu canal no YouTube com as palavras que já se tornaram um ritual: "Olá, amantes da música brasileira." Impossível não reagir àquele riso.

Trata-se de Juscelino Filho, um daqueles apresentadores que parecem te abraçar com histórias e muito bom humor ao falar de música. Seu amor pela cultura brasileira é visível no carinho com que aborda velhos cantores e compositores — e na forma como destaca a importância deles na formação dos novos artistas.


"Seu amor pela cultura brasileira é visível no seu carinho ao falar de velhos cantores e compositores tal qual a importância deles na formação de novos artistas." 

E como falamos aqui de Livros e Músicas, o canal Musicália está lançando o seu segundo livro — uma obra que promete emocionar qualquer fã da música popular brasileira.





50 Anos de Sonho e Sangue

Uma análise do álbum Alucinação, do inesquecível Belchior — trazendo todo um contexto histórico e sentimental em torno de cada faixa desta obra-prima lançada em 1976.

Carla Cruz Juscelino Filho

Os autores Carla Cruz — cantora, compositora e escritora — e Juscelino Filho — cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo, crítico musical e youtuber — nos situam entre cada faixa desta obra-prima com sensibilidade rara. Se você também é um amante da música brasileira, conheça o Musicália e não esqueça de garantir o seu exemplar desta história de "50 anos de sonho e de sangue…"



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O filho que eu quero ter

Leia em inglês abaixo                                                                                                                       ...