Quem escolhe o que você admira?
English version below
Quem escolhe o que você admira?
Há uma pergunta que me acompanha há alguns dias.
Por que, em tantas cidades pequenas, aquilo que nasce ao nosso lado parece valer menos do que aquilo que vem de longe?
Não me refiro apenas à música, aos livros ou às artes. Refiro-me ao modo como aprendemos a olhar para o mundo.
É curioso. Um restaurante funciona durante anos. Um músico se apresenta há décadas. Um artesão dedica a vida inteira ao seu trabalho. Um professor transforma gerações. Mas basta que alguém de fora descubra qualquer um deles para que, de repente, todos passem a enxergar um valor que sempre esteve ali.
O que mudou?
A resposta mais fácil seria dizer que o reconhecimento externo trouxe credibilidade. Mas será que essa é toda a explicação?
Talvez não.
Talvez exista uma questão mais profunda.
Talvez, sem percebermos, ainda carreguemos uma antiga necessidade de autorização para admirar.
Durante muito tempo aprendemos que os grandes centros produziam cultura, enquanto o interior apenas a consumia. Aprendemos que o importante acontecia em outro lugar. Que as novidades sempre chegavam de fora. Que aquilo que era realmente bom precisava primeiro conquistar o mundo para, só depois, conquistar a nossa rua.
Essa forma de pensar deixa marcas.
E as marcas permanecem mesmo quando não percebemos sua existência.
É como se disséssemos, inconscientemente:
"Se alguém importante reconheceu, então deve ter valor."
Mas há uma pergunta ainda mais desconfortável.
Por que precisamos que outra pessoa valide aquilo que os nossos próprios olhos já poderiam perceber?
Não estou defendendo que ignoremos a opinião dos outros.
Seria um erro.
A cultura é o ponto de encontro
Ninguém cresce sozinho.
Toda cultura é construída por encontros, influências e descobertas.
O problema começa quando deixamos de usar essas referências como orientação e passamos a utilizá-las como substitutas do nosso próprio julgamento.
Existe uma diferença enorme entre ouvir uma recomendação e terceirizar a própria opinião.
No primeiro caso, alguém desperta nossa curiosidade.
No segundo, alguém decide por nós.
A autonomia cultural talvez comece exatamente nesse ponto.
Ela não consiste em rejeitar tudo o que vem de fora.
Também não significa desconfiar automaticamente do sucesso, da crítica especializada ou da divulgação profissional.
A propaganda é um problema?
Aliás, uma boa divulgação possui um papel importante. Ela torna visível aquilo que talvez jamais encontrássemos por acaso.
O problema não está na divulgação.
O problema está em acreditar que a divulgação determina o valor.
Uma obra não se torna excelente porque apareceu na televisão.
Uma música não passa a ser bonita porque acumulou milhões de reproduções.
Um artista não se torna talentoso apenas porque alguém famoso falou sobre ele.
Esses elementos podem revelar uma obra ao público.
Jamais podem substituir o encontro entre a obra e quem a contempla.
A importância da autonomia
Talvez seja justamente aí que nasce a verdadeira autonomia.
A capacidade de ouvir recomendações sem abrir mão do próprio olhar.
Uma pessoa autônoma pode visitar uma exposição indicada por um amigo.
Pode assistir ao filme premiado.
Pode ouvir a música do momento.
Pode ler o livro mais comentado do ano.
Nada disso compromete sua liberdade.
O que preserva sua autonomia é algo muito simples:
Ao final da experiência, ela continua sendo dona da própria conclusão.
Infelizmente, nem sempre fazemos isso.
Vivemos cercados por listas dos melhores livros.
Dos melhores filmes.
Dos melhores restaurantes.
Das músicas indispensáveis.
Dos lugares que "você precisa conhecer antes de morrer".
Pouco a pouco deixamos de perguntar:
"Do que eu gosto?"
E passamos a perguntar:
"Do que esperam que eu goste?"
A diferença parece pequena.
Mas ela muda completamente a relação entre o indivíduo e a cultura.
Uma visão própria
Quando a aprovação dos outros se torna mais importante do que a própria experiência, deixamos de explorar o mundo.
Passamos apenas a seguir seus mapas.
Existe uma antiga expressão latina muito conhecida pelos filósofos:
"Sapere aude."
Ouse pensar por si mesmo.
Talvez possamos adaptá-la aos nossos dias.
Ouse sentir por si mesmo.
Ouse descobrir por si mesmo.
Ouse admirar sem pedir licença.
Isso não significa fechar os ouvidos para o mundo.
Significa apenas que a palavra final continua sendo sua.
A realidade
Há algo profundamente triste quando uma comunidade só aprende a valorizar aquilo que recebeu um selo de aprovação vindo de longe.
Porque, nesse momento, ela deixa de confiar na própria capacidade de reconhecer a beleza.
É uma forma silenciosa de dependência.
Talvez seja até um resquício de uma colonização que já não ocupa territórios, mas ainda ocupa imaginários.
Quando acreditamos que o valor sempre mora em outro lugar, acabamos empobrecendo o lugar onde estamos.
E isso vale para tudo.
Para a cultura.
Para as pessoas.
Para as ideias.
Para os talentos.
Talvez a maturidade de uma sociedade não esteja em admirar apenas o que é famoso.
Nem em rejeitar o que faz sucesso.
Mas em desenvolver um olhar suficientemente livre para reconhecer qualidade onde quer que ela exista.
Sem preconceitos.
Sem submissão.
Sem necessidade de autorização.
No fim das contas, autonomia não é caminhar sozinho.
É caminhar com os próprios pés.
É ouvir muitas vozes sem perder a própria.
É permitir que o mundo nos apresente novidades, mas jamais permitir que ele escolha, por nós, aquilo que merece a nossa admiração.
Porque a verdadeira liberdade cultural talvez comece exatamente aí.
No instante em que deixamos de perguntar quem aprovou determinada obra...
...e começamos, finalmente, a perguntar o que ela despertou em nós.
Os artistas da região
Neste mês, traremos artigos focados na biografia e obra dos artistas da região.
Teremos a oportunidade de debater deferentes estilos, composições e o melhor: expandir os nossos conceitos, possibilitando o reconhecimento do que surge ao nosso redor.
Falaremos também da música como arte e como produto de consumo.
Contamos com a sua participação.
Que tal ouvir Sampa de Caetano Veloso?
Clique aqui: Sampa
"Da força da grana que ergue e destrói coisas belas..."
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English Version
Who Chooses What You Admire?
There is a question that has been on my mind for a few days now.
Why, in so many small towns, does what is born right beside us seem to be worth less than what comes from far away?
I am not referring only to music, books, or the arts. I am referring to the way we learn to look at the world.
It is curious. A restaurant operates for years. A musician performs for decades. An artisan devotes a lifetime to their craft. A teacher transforms generations. Yet, all it takes is for someone from the outside to discover any of them for everyone suddenly to see a value that was always there.
What changed?
The easiest answer would be to say that external recognition brought credibility. But is that the whole explanation?
Perhaps not.
Perhaps there is a deeper issue.
Perhaps, without realizing it, we still carry an ancient need for permission to admire.
For a long time, we were taught that major urban centers produced culture, while the countryside merely consumed it. We learned that what mattered happened somewhere else. That novelty always arrived from the outside. That what was truly good had to conquer the world first before it could conquer our own street.
This mindset leaves marks.
And those marks remain even when we are unaware of their existence.
It is as if we were subconsciously saying:
"If someone important recognized it, then it must have value."
But there is an even more uncomfortable question.
Why do we need someone else to validate what our own eyes could already perceive?
I am not arguing that we should ignore the opinions of others.
That would be a mistake.
Culture Is the Meeting Point
No one grows alone.
All culture is built through encounters, influences, and discoveries.
The problem begins when we stop using these references as guidance and start using them as substitutes for our own judgment.
There is a massive difference between listening to a recommendation and outsourcing your own opinion.
In the first case, someone sparks our curiosity.
In the second, someone decides for us.
Cultural autonomy perhaps begins at that exact point.
It does not consist of rejecting everything that comes from the outside.
Nor does it mean automatically doubting success, expert criticism, or professional publicity.
Is Publicity a Problem?
In fact, good promotion plays an important role. It makes visible what we might never have stumbled upon by chance.
The problem is not the publicity.
The problem is believing that publicity determines value.
A work does not become excellent simply because it appeared on television.
A song does not become beautiful simply because it accumulated millions of plays.
An artist does not become talented solely because someone famous spoke about them.
These elements can introduce a work to the public.
They can never replace the encounter between the work and the person beholding it.
The Importance of Autonomy
Perhaps that is precisely where true autonomy is born.
The ability to listen to recommendations without surrendering your own gaze.
An autonomous person can visit an exhibition recommended by a friend.
They can watch an award-winning film.
They can listen to the hit song of the moment.
They can read the most talked-about book of the year.
None of this compromises their freedom.
What preserves their autonomy is something very simple:
At the end of the experience, they remain the owner of their own conclusion.
Unfortunately, we do not always do this.
We live surrounded by lists of the best books.
The best movies.
The best restaurants.
Essential songs.
Places "you must visit before you die."
Little by little, we stop asking:
"What do I like?"
And start asking:
"What am I expected to like?"
The difference seems subtle.
But it completely alters the relationship between the individual and culture.
A Vision of One's Own
When the approval of others becomes more important than the experience itself, we stop exploring the world.
We merely begin following its maps.
There is a well-known ancient Latin expression cherished by philosophers:
"Sapere aude."
Dare to think for yourself.
Perhaps we can adapt it to our times.
Dare to feel for yourself.
Dare to discover for yourself.
Dare to admire without asking for permission.
This does not mean closing your ears to the world.
It simply means that the final word remains yours.
The Reality
There is something deeply sad when a community only learns to value what has received a stamp of approval from afar.
Because, in that moment, it stops trusting its own capacity to recognize beauty.
It is a silent form of dependency.
It may even be a lingering remnant of a colonization that no longer occupies physical territories, but still occupies imaginations.
When we believe that value always resides somewhere else, we end up impoverishing the place where we are.
And this applies to everything.
To culture.
To people.
To ideas.
To talents.
Perhaps the maturity of a society lies not in admiring only what is famous,
Nor in rejecting what is successful,
But in developing a perspective free enough to recognize quality wherever it exists.
Without prejudice.
Without submission.
Without the need for permission.
In the end, autonomy is not walking alone.
It is walking on your own two feet.
It is listening to many voices without losing your own.
It is allowing the world to introduce us to new things, but never allowing it to choose, on our behalf, what deserves our admiration.
Because true cultural freedom perhaps begins right there.
The moment we stop asking who approved a given work...
...and finally begin asking what it awakened within us.
Local Artists
This month, we will feature articles focusing on the biographies and works of regional artists.
We will have the opportunity to discuss different styles and compositions, and best of all: expand our perspectives, allowing us to recognize what is thriving right around us.
We will also discuss music both as art and as a consumer product.
We look forward to your participation.
How about taking a listen to Sampa by Caetano Veloso?
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