Uma partida de futebol - SKANK ... E o futebol brasileiro na Copa do Mundo 2026.

 

Uma partida de futebol




"Bola na trave não altera o placar

 Bola na área ter alguém pra cabecear

 Bola na rede pra fazer o gol 

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?"


As frases da vibrante “Uma partida de futebol”, lançada pelo grupo Skank, foram compostas por Samuel Rosa e Nando Reis, e lançadas pelo selo Sony Music em 1996 (no álbum O Samba Poconé).


Posso morrer pelo meu time / se ele perder, que dor… imenso crime.

 

O autor não poupa palavras para descrever a sua paixão por seu time de coração e, consequentemente, consegue espelhar a sensação de cada torcedor apaixonado. Que emoção é, de verdade, ver o time do coração ganhando!

Por outro lado, será que os jogadores de hoje têm um time de coração?


PAIXÃO ANTIGA

Há muito tempo, talvez até o final do século passado, as crianças jogavam bola em campos improvisados, nas ruas ou onde quer que encontrassem espaço.

 Os jovens sonhavam em, um dia, jogar no seu time do coração.

 No interior da Bahia, a televisão usava os times do Rio de Janeiro para inspirar os meninos a torcerem e jogarem pelo Flamengo, Fluminense, Vasco ou Botafogo. 

Na década de 1990, a Rede Bandeirantes trouxe ao interior o Campeonato Paulista. 

E os meninos carregavam no coração dois sonhos: jogar pelo seu time e alcançar o auge atuando pela Seleção.

Bem poucos realizavam esses sonhos.

A espontaneidade do futebol brasileiro era elogiada em todo o mundo.


AS MUDANÇAS

 A imprensa estrangeira especulava que, no Brasil, as pessoas passavam o dia inteiro jogando bola nas imensas praias que banham o nosso vasto litoral. 

Enquanto isso, do lado de cá do Atlântico, a imprensa passou a transmitir os ricos e organizados campeonatos europeus, ao passo que a organização dos campeonatos brasileiros parecia amadora.

Mas ainda havia a fonte e a matéria-prima — a arte de jogar futebol ainda parecia brotar da terra.

Com o tempo, os times de coração passaram a ser os times de fora, e os antigos campos improvisados foram substituídos por praças e jardins públicos. 

Praticar e desenvolver habilidades neste esporte virou exclusividade das escolinhas.

 E, infelizmente, nem todos podem pagar por elas.

 Nas escolinhas, as crianças aprendem táticas, desenvolvem suas habilidades e sonham em ser descobertas pelos times grandes para ficarem ricas — visando, principalmente, uma carreira no exterior.

A imagem do futebol-arte foi substituída por um futebol pragmático, com foco obsessivo nos resultados.

A Copa do Mundo costumava ser um torneio onde os diferentes estilos de jogo se encontravam para um desafio: qual destes estilos seria o superior nesta edição? 

É fato que, durante décadas, o futebol brasileiro se destacou no mundo por suas qualidades: jogadores habilidosos, o improviso quando necessário e a beleza do conjunto. 

Fomos cinco vezes campeões desse torneio. 

Mas, mesmo belo, esse futebol não ganharia tudo para sempre.

E, por não sabermos lidar com os reveses das derrotas, desenvolveu-se a narrativa da superioridade absoluta do estilo europeu. 

Aos poucos, o futebol nacional foi perdendo suas características principais, transformando-se em um híbrido defeituoso; uma imitação torta do futebol praticado na Europa.

 É o típico reflexo de um país que carrega no lombo a "síndrome de vira-latas".

Jogador de Seleção tem que atuar na Europa. 

"São os melhores!" (Ou têm os melhores empresários...).

 Vemos jogadores, mesmo habilidosos, engessados a um esquema tático rígido, sem nenhuma paixão por seus clubes ou respeito ao sentimento dos torcedores — mais preocupados em firmar contratos com bets e outras fontes de receita.

Torcedores? 

Para que servem?

Antes de responder a essas perguntas, analisaremos alguns pontos. 

A transmissão da Copa do Mundo nos ajuda a entender a resposta a essas questões. 

A convocação do jogador Neymar — que, quer você seja um admirador, indiferente ou crítico, não atuava em alto nível por um longo período devido a lesões e escolhas de carreira — foi celebrada por muitos como se fosse a salvação da Seleção Brasileira em 2026.

 Na festa da convocação no Museu do Amanhã e no frisson causado a cada atuação abaixo da média nas primeiras partidas da Copa, as transmissões de streaming e TV intercalavam a narração com ofertas de apostas e novas odds (as populares bets), estimulando agressivamente a participação dos telespectadores.

Mesmo diante de exibições letárgicas e preguiçosas, a narrativa midiática tentava criar uma ilusão — que funcionou até a fatídica eliminação contra a Noruega.

 Perdida em campo, após o pênalti desperdiçado, a Seleção parecia satisfeita, andando como se já tivesse alcançado o seu verdadeiro objetivo.

 E quem sabe já não o tivesse alcançado? No segundo gol da Noruega,  os zagueiros pareciam apenas admirar o atacante adversário.

 A eliminação para a  Noruega, historicamente uma seleção sem tradição de títulos mundiais — é o símbolo máximo do colapso desse modelo híbrido e burocrático que o Brasil adotou. Mostra que até seleções consideradas médias ou operárias superam o Brasil quando falta alma e sobra pragmatismo comercial.

O choro após a partida será esquecido assim que voltarem para suas mansões, um pouco mais ricos. Mas fica a pergunta: quanto a Seleção, a confederação e os jogadores lucraram com os contratos com as bets? Quem bancou essas apostas?

Há investigações contundentes apontando que criminosos usam as plataformas de apostas para lavagem de dinheiro. 

O fato mais cruel é que, na maioria das vezes, são pessoas de baixa renda que se sentem impulsionadas a apostar, perdendo seus poucos recursos.

 Quem resiste às odds e às probabilidades, ainda mais quando por trás há toda uma psicologia agressiva de marketing? 

O aviso de "aposte com responsabilidade" é mera formalidade jurídica.

A INFLUÊNCIA DAS BETS

A influência das bets não está apenas sobre o futebol: grandes canais de mídia já têm suas próprias plataformas de apostas e, até mesmo no Congresso Nacional, há políticos que atuam diretamente na defesa e afrouxamento da regulação dessa atividade.

Os torcedores tornaram-se a engrenagem por trás de tudo isso. Não são mais apoiadores; foram reduzidos a meros instrumentos de monetização.

Independente de qual Seleção vença, a Copa já foi manchada pela interferência extracampo, erros grosseiros de arbitragem (comuns apesar do VAR), preconceito de torcidas com insultos racistas e dancinhas coreografadas de jogadores para o TikTok — feitas sob medida para engajar seguidores instrumentalizados.

 As apostas online já venceram o campeonato muito antes do apito final.

E no futuro, para manterem acesa a máquina de lucro, os meios de comunicação repetirão os mesmos artifícios. 

As pessoas vão enfeitar suas ruas, pintando o asfalto de verde e amarelo, acreditando ser este um ato de puro patriotismo. Mas, frustrando-se mais uma vez, retornarão às suas vidas sem questionar a estrutura do sistema.


Das arquibancadas virtuais ou reais, voltarão a chorar por seus times, voltarão a acreditar que seus novos ídolos serão os salvadores da pátria e, como toda criança que sonha, esquecerão de enxergar o padrão desta engrenagem.


Esquecerão, sim. Pois, afinal, que “emocionante é uma partida de futebol”!

Ouça aqui: Skank - É uma Partida de Futebol (Áudio Oficial)



Fontes e Referências: 

Para dar autoridade ao seu texto crítico, você pode listar as seguintes referências ao final da publicação:

  • Composição e Lançamento: SKANK. O Samba Poconé. Rio de Janeiro: Sony Music, 1996. Faixa 2: "Uma partida de futebol" (Samuel Rosa / Nando Reis).

  • Avanço e Impacto das Bets no Brasil: Instituto Locomotiva / Anbima (2024-2026). Pesquisas sobre o perfil dos apostadores brasileiros apontam que as classes D e E são as mais afetadas financeiramente pelas apostas esportivas, comprometendo o orçamento doméstico.

  • Lavagem de Dinheiro e Falhas de Regulação: Relatórios da Polícia Federal e do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) detalham investigações sobre a utilização de plataformas de apostas online de cota fixa para a ocultação de bens e lavagem de capitais de facções criminosas.

  • Transmissões Esportivas e Casas de Apostas: Análise de Mídia Esportiva. O mercado de publicidade brasileiro registrou que, a partir de 2024, mais de 70% dos clubes da Série A do Brasileirão e os principais conglomerados de mídia (incluindo canais abertos e streamings como a CazéTV) passaram a ter patrocínio master ou parcerias diretas com empresas de apostas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Luiz Gonzaga – O Rei do Baião

O Dia em que a Terra parou - Uma reflexão

Bem-vindos ao Livros e Músicas