Que País é esse? - Conheça a história dessa música

English Version Below

Que país é esse?


"Nas favelas, no Senado

 Sujeira pra todo lado,

 Ninguém respeita a Constituição 

mas, todos acreditam no futuro da nação... 

Que País é esse?"



Legião Urbana - Que país é esse (Clipe Oficial)

A melodia simples, a letra contundente e a interpretação raivosa do vocalista da Legião Urbana parecem incorporar o cenário atual social e político de muitos países.

O contexto, porém, revela algo que pode surpreender a muitos.

A canção "Que País é este?", do álbum Que País É Este (1978/1987), lançado em 1987 pelo grupo, foi composta por Renato Russo em 1978, ano em que o Brasil ainda vivia em plena era de regime militar, ou se preferir, como dizia o próprio documento do Ato Institucional n°5 (AI-5) de 1968, "Regime Ditatorial".

Filho de funcionário do Banco do Brasil (que exercia funções de liderança e chegou a trabalhar na execução de créditos externos), favorecido pelo sistema, o autor poderia ser apenas mais um daqueles que usufruiriam as benesses de uma boa educação, da liberdade de ir e vir a vários países do mundo — tendo inclusive morado em Nova York na infância — e simplesmente "aceitar as bênçãos do sistema".

Mas contestador, percebia os desmandos, as diferenças e escrevia sobre isso.

Observe as linhas:

"No Amazonas, No Araguaia Na Baixada Fluminense Mato Grosso, Minas Gerais E no nordeste tudo em paz"

Para nos ajudar a entender este trecho da música, vamos a alguns fatos interessantes:

No Amazonas (e na região Amazônica)

A década de 1970 foi marcada pela corrida da "integração nacional" sob o lema "Integrar para não entregar". O regime militar iniciou obras faraônicas na esteira do "Milagre Econômico", como a construção da Rodovia Transamazônica (BR-230) e da Perimetral Norte.

  • O impacto: Esse processo causou um verdadeiro etnocídio indígena. Povos inteiros (como os Waimiri-Atroari) foram dizimados por epidemias de doenças trazidas de fora, remoções forçadas e massacres diretos perpetrados para abrir caminho para as estradas e frentes agrícolas.

No Araguaia

Entre 1972 e 1975, a região ao longo do rio Araguaia (na divisa entre o Pará, Maranhão e o antigo norte de Goiás, hoje Tocantins) foi o cenário da Guerrilha do Araguaia.

  • O impacto: Militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) tentaram organizar um movimento de guerrilha rural para derrubar a ditadura. As Forças Armadas mobilizaram milhares de soldados em operações ultra-secretas de contra-insurgência. O movimento foi brutalmente esmagado, resultando na execução e no desaparecimento forçado de dezenas de guerrilheiros e na tortura de camponeses locais que os apoiavam.

Na Baixada Fluminense

No Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense viveu a explosão da violência urbana institucionalizada e paramilitar.

  • O impacto: Foi o auge de atuação dos Esquadrões da Morte — grupos de extermínio formados majoritariamente por policiais e agentes de segurança pública. Sob o pretexto de "combater o crime", esses grupos assassinavam opositores, pequenos infratores e a população marginalizada, espalhando corpos pelas periferias e agindo com total complacência (e muitas vezes colaboração) do aparato de segurança do Estado.

Mato Grosso e Minas Gerais

Ambos os estados foram palcos de violentas disputas de terra provocadas pela política de colonização e expansão da fronteira agrícola incentivada pelo governo federal.

  • O impacto: Em Mato Grosso, grandes latifundiários e empresas ganharam incentivos fiscais para ocupar terras, desalojando violentamente posseiros, camponeses e comunidades indígenas. Em Minas Gerais, além dos conflitos no campo (como no Vale do Jequitinhonha), o estado foi um dos principais centros de operação do aparato de tortura do DOI-CODI, asfixiando os movimentos estudantis e sindicais que ensaiavam resistência nas cidades.

"E no nordeste tudo em paz"

Este verso carrega uma profunda ironia política. O Nordeste estava longe de estar em paz.

  • O impacto: A região sofreu uma vigilância e repressão implacáveis contra as Ligas Camponesas (movimentos de reforma agrária severamente desarticulados logo após o golpe de 1964) e contra as lideranças católicas progressistas ligadas às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Dizer que estava "tudo em paz" era uma crítica direta à censura oficial, que abafava a fome, a miséria acentuada pelas secas e a violência política na região para vender a ilusão de um país próspero e pacificado.

  • Sem mencionar que devido à falta de investimentos na região havia um grande fluxo migratório para o Sul e Sudeste.

Nota do autor: É verdade que muito tempo passou e muitas pessoas afirmam que naquele tempo não havia corrupção ou violência. De fato, os jornais da época se viam obrigados a jogar o jogo, pois a censura presente nas redações fiscalizava para que não passasse nada desfavorável ao governo.

Jornalistas foram executados por criticarem o regime ditatorial.

 

 O bêbado e a equilibrista

Choram Marias e Clarices... (Clarice Herzog, viúva de jornalista assassinado.

Alguns jornais substituíam as notícias censuradas por receitas de bolo ou notícias absurdas como o "ataque da perna cabeluda" — se você teve a oportunidade de assistir ao filme brasileiro O Agente Secreto, de 2025.

A ignorância preservava vivos aqueles que não ousavam investigar as irregularidades do governo.

Da próxima vez que ouvir a canção Que País é Este, lembre que, além de um jogo perfeito de palavras, há muita história de conscientização da violência e da desonestidade disfarçadas por detrás de um grito de ordem.


Ouça a música aqui: 

Do autor: 

"Muitas vezes, as histórias que ouvimos por toda a vida passam por ajustes para se tornarem menos fantasiosas e um pouco mais próximas da realidade. Na ânsia de criar referências, a história oficial muitas vezes cria mitos e omite os bastidores de grandes eventos. O livro 'Crônicas do Cotidiano – Um Novo Jeito de Ver' nos convida a reavaliar o passado — desde a independência romantizada do Brasil até o impacto real da colonização sobre os povos indígenas. Uma obra com histórias, poesias e reflexões, essencial para quem busca ir um pouco além da superfície e compreender as verdadeiras estruturas da nossa sociedade."

Conheça o nosso livro Crônicas do Cotidiano, disponível na Amazon.






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What Country Is This?


"In the slums, in the Senate

 Filth everywhere,

 Nobody respects the Constitution

 But everyone believes in the nation's future...

 What Country is this?"


                                                   


 The simple melody, the striking lyrics, and the raw, angry performance by Legião Urbana’s lead singer seem to embody the current social and political landscape of many countries. However, the context reveals something that might surprise many.

The song "Que País é este?", from the album Que País É Este (1978/1987), released by the band in 1987, was actually composed by Renato Russo in 1978.

 That was a year when Brazil was still living in the midst of a military regime—or, if you prefer, as the official document of Institutional Act No. 5 (AI-5) of 1968 itself stated, a "Dictatorial Regime."

As the son of a Banco do Brasil employee (who held leadership positions and worked in foreign credit execution), the author was a beneficiary of the system.

 He could have easily been just another person enjoying the perks of a great education and the freedom to travel to various countries around the world—having even lived in New York during his childhood—and simply "accepted the blessings of the system."

 Instead, being a rebel at heart, he noticed the abuses of power and the inequalities, and he chose to write about them.

Take a look at these lines: "In the Amazonas, in the Araguaia In the Baixada Fluminense Mato Grosso, Minas Gerais And in the Northeast, everything is at peace"

To help us understand this part of the song, let’s look at some interesting historical facts:


In the Amazonas (and the Amazon region)

The 1970s were marked by a rush for "national integration" under the slogan "Integrar para não entregar" (Integrate it so we don't lose it). The military regime launched pharaonic infrastructure projects on the heels of the "Economic Miracle," such as the construction of the Trans-Amazonian Highway (BR-230) and the Perimetral Norte.

The impact: This process caused a literal indigenous ethnocide. Entire tribes (such as the Waimiri-Atroari) were decimated by epidemics of imported diseases, forced relocations, and direct massacres carried out to clear the path for highways and agricultural frontiers.

 

In the Araguaia

Between 1972 and 1975, the region along the Araguaia River (on the border of Pará, Maranhão, and the old northern part of Goiás, now Tocantins) was the stage for the Araguaia Guerrilla War.

The impact: Militants from the Communist Party of Brazil (PCdoB) attempted to organize a rural guerrilla movement to overthrow the dictatorship. The Armed Forces deployed thousands of soldiers in top-secret counter-insurgency operations. The movement was brutally crushed, resulting in the execution and forced disappearance of dozens of guerrillas, as well as the torture of local peasants who supported them.

 

In the Baixada Fluminense

In Rio de Janeiro, the Baixada Fluminense region experienced an explosion of institutionalized and paramilitary urban violence.

The impact: This was the peak of the Esquadrões da Morte (Death Squads)—extermination groups mostly made up of police officers and public security agents. Under the pretext of "fighting crime," these groups murdered political opponents, petty criminals, and marginalized populations, dumping bodies across the outskirts of the city while operating with the complete complacency (and often collaboration) of the State security apparatus.

 

Mato Grosso and Minas Gerais

Both states were scenes of violent land disputes triggered by the colonization and agricultural expansion policies incentivized by the federal government.

The impact: In Mato Grosso, large landowners and corporations received tax incentives to occupy lands, violently displacing squatters, peasants, and indigenous communities. In Minas Gerais, besides rural conflicts (such as in the Jequitinhonha Valley), the state was one of the main operational hubs for the DOI-CODI torture apparatus, suffocating student and labor union movements trying to build a resistance in the cities.

 

"And in the Northeast, everything is at peace"

This verse carries deep political irony. The Northeast was nowhere near peaceful.

The impact: The region suffered relentless surveillance and repression against the Ligas Camponesas (Peasant Leagues—agrarian reform movements severely dismantled right after the 1964 coup) and against progressive Catholic leaders tied to the Comunidades Eclesiais de Base (Ecclesial Base Communities). Saying "everything was at peace" was a direct critique of official censorship, which smothered news of hunger, poverty worsened by droughts, and political violence in the region to sell the illusion of a prosperous and pacified country. Not to mention that due to the lack of investment in the region, there was a massive migration wave to the South and Southeast.

Author's Note: It is true that a lot of time has passed, and many people today claim that back then there was no corruption or violence. In reality, the newspapers of the era were forced to play along, as the censorship present in newsrooms ensured nothing unfavorable to the government was published.

Journalists were executed for criticizing the dictatorial regime.

                                    

                                    Listen to the Song here: O bêbado e a equilibrista

"O bêbado e a equilibrista Choram Marias e Clarices..." (Clarice Herzog, widow of a murdered journalist).

Some newspapers replaced censored news pieces with cake recipes or absurd stories like the "attack of the hairy leg"—if you've had the chance to watch the 2025 Brazilian film The Secret Agent (O Agente Secreto).

Ignorance kept alive those who did not dare investigate government wrongdoings.

The next time you listen to the song "Que País é Este," remember that beyond a perfect play on words, there is a lot of history regarding the awareness of violence and dishonesty disguised behind a battle cry.


                                             

Listen do Song clicking here: Legião Urbana - Que país é esse (Clipe Oficial) - YouTube

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