quarta-feira, 10 de junho de 2026

COMO NOSSOS PAIS - O CICLO QUE SE REPETE

 COMO NOSSOS PAIS


"Viver é melhor que sonhar…

Eu sei que o amor é uma coisa boa." — Belchior


Para começar este artigo, lembramos que a interpretação das letras é aberta. As canções são vivas e a sua mensagem pode viver e reviver através de muitas gerações.


Belchior é, de fato, um dos maiores nomes da história da Música Popular Brasileira. Nordestino, cearense, pensador e compositor de verdadeiras pérolas.


Neste artigo, vamos mergulhar na letra desta canção que tanto pode ser um chamado à ação para uma nova geração quanto um lamento diante do eterno ciclo de esperanças e desilusões.


Entre as várias interpretações de belos cantores, destacamos aqui as versões de Elis Regina e do próprio Belchior. A canção foi lançada originalmente no disco Alucinação, do próprio compositor. Elis Regina também a gravou em 1976, no álbum Falso Brilhante.




Como Nossos Pais (Remastered 2006) Clique no link para ouvir Elis Regina



A interpretação visceral de Elis provoca e constrange, como se estivesse perguntando:

"Vamos continuar repetindo os mesmos erros? Será que não aprendemos nada? Assim como os nossos pais, veneramos artistas que parecem trazer novas ideias, mas que no fundo estão lá, sacrificando as suas próprias personalidades pelo vil metal?"


Na TV, apresentadores fingem se importar com pessoas carentes e simulam choro e indignação diante das injustiças — enganando um público que parece, muitas vezes, desejar ser enganado.


No campo político, o novo discurso surge na boca de velhos atores que se beneficiaram por toda uma vida desse mesmo sistema. A esperança cega e o desejo de mudança ofuscam a razão, perpetuando o ciclo de erros. As gerações acabam, não raro, perpetuando a hipocrisia ao acreditar que alguém novo vai aparecer trazendo mudanças.


As gerações se sucedem e repetem os mesmos erros.


Estamos todos cientes da necessidade de uma mudança, mas o que se espera realmente? O que é, de fato, essa mudança? Trocam-se personagens que, como num clássico de cinema em preto e branco, repetem mecanicamente as mesmas cenas para um público novo.


E o novo sempre vem — sejam novas promessas, novas ideias… ou apenas novas gerações.


No final da década de 1960, o movimento Flower Power trouxe à tona a utopia de um mundo mais simples, guiado pelo amor livre e pela busca da paz. Esse imaginário atravessou fronteiras e encontrou ressonância no Brasil, influenciando diretamente a estética e o pensamento da Tropicália


Aquela ilusão de paz foi se diluindo com o tempo e no meio da década de 1970 já havia se tornado uma utopia. 

Belchior certamente observava com atenção esse movimento.


Os movimentos passaram... e, com ele os sonhos e as certezas.

Mas, em sua essência… nada mudou.


Apesar de tantos experimentos e tantas mudanças, a busca e os erros se repetem.


Ouvir as mais diferentes versões desta música nos mostra o poder e o sentimento do intérprete. Não há uma versão melhor ou pior — o que existe são meios diferentes de transmitir sentimentos diferentes com as mesmas palavras.





Alucinação - Como Nossos Pais Clique para ouvir Belchior


A interpretação do autor evoca a sensação de desilusão de quem viu tudo e concluiu que a busca é, em si, o sentido e o motivo de tudo. A voz comedida e angustiada, como a de um homem que lamenta constatar que tudo o que se pode fazer — e tem sido feito — é repetir este ciclo sem fim.



"Apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais."







                                                                                                      Leia em inglês abaixo

                                                                                                        English version below 




LIKE OUR PARENTS


Living is better than dreaming…

I know that love is a good thing.” — Belchior


To begin this article, it is worth remembering that the interpretation of lyrics is open. Songs are alive, and their message can live and relive across many generations.

Belchior is, indeed, one of the greatest names in the history of Brazilian Popular Music. Northeastern, from Ceará, a thinker and a composer of true gems.

In this article, we will dive into the lyrics of this song, which can be both a call to action for a new generation and a lament in the face of the eternal cycle of hopes and disillusionments.

Among the many interpretations by remarkable performers, we highlight here the versions by Elis Regina and Belchior himself. The song was originally released on the album Alucinação, by the composer. Elis Regina also recorded it in 1976, on the album Falso Brilhante.


                                                           

Como Nossos Pais (Remastered 2006) by Elis Regina


The visceral interpretation of Elis provokes and unsettles, as if asking:

“Are we going to keep repeating the same mistakes? Haven’t we learned anything? Like our parents, do we idolize artists who seem to bring new ideas, but who, deep down, are sacrificing their own identities for money?”

On television, presenters pretend to care about people in need, simulating tears and outrage in the face of injustice — deceiving an audience that often seems to want to be deceived.

In the political arena, new discourse emerges from the mouths of old actors who have benefited from that same system their entire lives. Blind hope and the desire for change cloud reason, perpetuating the cycle of mistakes. Generations end up, not rarely, perpetuating hypocrisy by believing that someone new will appear to bring real change.

Generations follow one another and repeat the same mistakes.

We are all aware of the need for change, but what is really expected? What is, in fact, this change? Characters are replaced who, like in a classic black-and-white film, mechanically repeat the same scenes for a new audience.

And the new always comes — whether new promises, new ideas… or simply new generations.

In the late 1960s, the Flower Power movement brought forward the utopia of a simpler world, guided by free love and the search for peace. This imaginary crossed borders and found resonance in Brazil, directly influencing the aesthetics and thinking of Tropicália.

That illusion of peace gradually faded, and by the mid-1970s it had already become a utopia.

Belchior certainly observed this movement closely.

The movements passed…

And, in their essence… nothing changed.

Despite so many experiments and so many changes, the search — and the mistakes — repeat themselves.

Listening to the many different versions of this song reveals the power and emotion of each performer. There is no better or worse version — only different ways of conveying different feelings through the same words.


Alucinação - Como Nossos Pais by Belchior

The author’s own interpretation evokes the feeling of disillusionment of someone who has seen it all and concluded that the search itself is the meaning and the reason for everything. His restrained and anguished voice sounds like that of someone who realizes, with uncomfortable clarity, that all that can be done — and has been done — is to repeat this endless cycle.


“Despite everything we have done, everything, everything we have done, we are still the same and we live just like our parents.”



Translation by A.I

segunda-feira, 8 de junho de 2026

João e Maria – O que essa canção realmente conta?

João e Maria


   Leia em inglês abaixo

                                                                                                          English version below 


"Agora eu era o herói

 E o meu cavalo só falava inglês..." 


 Uma das mais belas canções brasileiras começa com estas palavras. 

 Poucas canções traduzem a nostalgia e a saudade da infância como João e Maria, de Chico Buarque e do mestre Sivuca.

 Interessante que a melodia foi elaborada em 1947, quando Sivuca tinha apenas 17 anos, e Chico ainda era um menino de 3 anos.

 Por 30 anos a canção seguiu sem nome até que em 1977 recebeu título e letra que se harmonizaram perfeitamente.

 A linda canção é rica em seus detalhes: 

 Se você apaixonado por letra de música, saiba que esta canção fala sobre um relacionamento que chegou ao fim. 

 A fantasia, a princesa, os planos, as dificuldades e o fim... tudo isso, interpretado docemente por Chico Buarque e Nara Leão. 



Chico Buarque e Nara Leão - João e Maria (Com Letra na Descrição) -Legendas (Clique no link para ouvir)


 É muito difícil ouvir e não se emocionar com esta obra que em si já é completa.

 Mas se você é apaixonado por história ela traz alguns detalhes que entregam um pouco da época em que foi escrita.


 "Eu enfrentava os batalhões,

 os alemães e seus canhões

 Guardava o meu bodoque

 E ensaiava um rock

 Para as matinês

 Agora eu era o rei

 Era o bedéu

 e era também juiz

 E pela minha lei 

 A gente era obrigado a ser feliz"


 Além de referir-se aos nazistas, Chico Buarque cita os bedéis, inspetores disciplinares que na época da ditadura atuavam como dedos duros nas universidades e juízes que serviam ao regime.

 O fim melancólico, pode remeter os ouvintes a uma recordação agridoce... 


 "Agora era fatal 

 que o faz de conta terminasse assim

 Pra lá desse quintal

 era uma noite que não tem mais fim

 Pois você sumiu no mundo sem me avisar 

 E agora eu era um louco a perguntar

 O que é que a vida vai fazer de mim?"


 As palavras que remetem ao final melancólico de uma fantasia, de um relacionamento, são as mesmas que podem lembrar os muitos desaparecidos, sem deixar rastros durante o regime ditatorial militar que "deu sumiço" a milhares de pessoas - que assassinou várias histórias.

 Que se manteve no poder por divulgar mentiras e espalhar medo e insegurança. 

 Toda canção pode significar algo diferente para alguém e sinceramente, a canção João e Maria é uma daquelas canções que nos fazem pensar "tudo poderia ter dado certo". 

 Mas, não fique triste - ainda há tempo.

 Deixo aqui alguns links com textos super interessantes que ampliaram a minha visão no significado desta obra inesquecível. Visite os sites abaixo.

A história da música "João e Maria", de Chico Buarque - Novabrasil

João e Maria (Chico Buarque) Lirismo ou crítica social? – musicaemprosa

#mpb #cultura #joãoemaria


João e Maria 


“Now I was the hero

And my horse could only speak English...”


There are songs that begin… and there are songs that stay with us.

One of the most beautiful Brazilian songs begins exactly like this.


Few songs can translate the nostalgia — and the quiet ache of childhood — the way João e Maria, by Chico Buarque and the master Sivuca, does.


There is something curious behind it: the melody was written in 1947, when Sivuca was only 17 years old. Chico, at that time, was just a 3-year-old boy.

The song waited. For 30 years, it had no name.

Until, in 1977, it finally found its lyrics — and everything fell perfectly into place.


And what a song it became.


If you enjoy paying attention to lyrics, you may notice: this is not just a childhood story.

It is about an ending.

A relationship that didn’t last.


The fantasy, the princess, the plans, the struggles… and, inevitably, the end.

All of this gently carried by the voices of Chico Buarque and Nara Leão.


It is hard to listen to it and not feel something.

Because the song, in itself, is already whole.


But if you look a little closer, it also reveals traces of its time.


“I faced the battalions,

the Germans and their cannons

I kept my slingshot

And rehearsed a rock

For the matinees

Now I was the king

I was the hall monitor

and also the judge

And by my law

We were forced to be happy”


Beyond the reference to the Nazis, Chico quietly brings in something else:

hall monitors — figures who, during the dictatorship, often acted as informants — and judges aligned with the regime.


And then comes the ending. Quiet. Melancholic. Almost inevitable.


“Now it was inevitable

that make-believe would end like this

Beyond that backyard

there was a night with no end

Because you disappeared into the world without telling me

And now I was a madman asking

What will life do with me?”


These words may sound like the end of a love story.

And they are.


But they can also echo something deeper —

the memory of those who disappeared without a trace during the military dictatorship,

a time that erased lives, silenced stories,

and sustained itself through fear and lies.


Every song means something different to someone.

And honestly, João e Maria is one of those songs that leaves us with a simple, almost unavoidable thought:

it could have worked.


But don’t hold on to the sadness.

There is still time.


Below are some links to texts that helped expand my understanding of this unforgettable song. If you’re curious, they are worth your time.


A história da música "João e Maria", de Chico Buarque - Novabrasil

João e Maria (Chico Buarque) Lirismo ou crítica social? – musicaemprosa


Tradução por I.A

sábado, 6 de junho de 2026

Televisão (Você gosta mesmo — ou foi ensinado a gostar?)





"A televisão me deixou burro", diziam os Titãs em 1985.

Não, eles não estavam questionando a importância da caixinha mágica que mudou a nossa percepção de mundo. A crítica estava na maneira como nos deixamos influenciar por tudo o que vemos e ouvimos.

Algo similar poderia ser dito a respeito das redes sociais, dos streamings de música e coisas assim.

Por exemplo, ter fama equivale a ser talentoso?

Assim como acontece em vários lugares, a fama e o sucesso nem sempre estão relacionados ao talento. 

Em municípios pequenos, amigos de políticos são convidados para os melhores cargos, pelo simples fato de serem "amigos ou parentes de políticos". Na televisão, nos meios de comunicação, algo similar acontece, aqueles que deveriam se destacar no mundo da música ou da arte são escolhidos a dedo, alguns por critérios bem duvidosos.

Vários artistas comentam que, no passado, para conseguirem papéis importantes, tiveram de fazer o chamado "teste do sofá" — prática que muitas vezes envolvia prestar favores, muitas vezes sexuais, a diretores ou chefes.

No mundo da música, aparecer em um determinado programa de TV era o suficiente para que "artistas" fossem considerados famosos e tivessem aumentos significativos em seus cachês.


Mas o que isso tem a ver com o "me deixou burro"?


Tempos atrás, muitas estações de rádio cobravam o chamado "jabá" para que os cantores tivessem suas canções apresentadas e elogiadas durante a programação.

A alta frequência e a repetição moldavam o gosto dos ouvintes. A voz atraente do locutor, a repetição contínua — tudo trabalhando para que aquele artista fosse aceito.

Uma vez alcançado o objetivo, empresários passavam a trabalhar num segundo campo: contratos com prefeituras e muita propaganda.

Por exemplo, no período das festas juninas, algumas prefeituras fazem contratos caríssimos com cantores ou duplas medíocres para satisfazer o desejo de uma população que não está lá para fazer parte da festa — que está lá apenas para ver o "famoso" que apareceu num programa de rádio ou televisão.

Quando algum administrador responsável prioriza artistas da terra ou artistas tradicionais, são severamente criticados — pois, na cidade vizinha, o prefeito contratou "o artista famoso".


A tolice de se comparar a outras cidades acabou com a festa. Temos shows...


As tradições são assassinadas por aqueles que criticam o fim das próprias tradições.

Algumas prefeituras brasileiras foram condenadas por desvios em grandes eventos.

        A passividade que existia em frente às telas se replica nos streamings.

Recentemente, no Brasil, um cantor se tornou famoso pela canção "Caneta Azul".

Uma canção simples, um cantor desajeitado, desafinado... e os risos da plateia.

A fama chegou trazendo muitos shows e dinheiro.

Uma pergunta me aflige: o que esperavam as pessoas que iam àqueles shows?

As pessoas são moldadas a acreditar no sucesso de artistas com base nas tendências do Spotify e de outras plataformas de música e já não conseguem mais entender o que gostam — ou por que gostam...

Ainda há tempo de pensar...

O problema não está apenas no que nos oferecem —
mas no que aceitamos sem questionar.


                                     Clique aqui para ouvir Titãs:  Televisão

O filho que eu quero ter

Leia em inglês abaixo                                                                                                                       ...